Otorrino infantil e sono da criança

Adenoide: o que ela é, como é avaliada e quando precisa sair

Dra. Aléxia Rezende GarciaCRM-MG 101.318RQE 6810604 de março de 20268 min de leitura
Adenoide: o que ela é, como é avaliada e quando precisa sair

A adenoide é um tecido de defesa localizado atrás do nariz, mais ativo na infância. Ela não precisa ser retirada apenas por estar aumentada: a decisão depende dos sintomas, da obstrução nasal, do sono, de infecções e da avaliação otorrinolaringológica.

O que é a adenoide e onde fica

A adenoide é um conjunto de tecido linfático, isto é, um tecido de defesa do organismo que participa do reconhecimento de microrganismos. Ela também recebe o nome de tonsila faríngea.

Fica na parte mais posterior do nariz, em uma região chamada rinofaringe, acima do céu da boca e atrás das cavidades nasais. Por essa localização, não é possível enxergá-la ao abrir a boca, diferentemente das amígdalas, que ficam visíveis nas laterais da garganta.

A adenoide tem maior atividade na infância, período em que a criança entra em contato com muitos vírus e bactérias. É comum que ela aumente de tamanho em crianças pequenas, especialmente entre 2 e 7 anos. Com o crescimento, costuma ocorrer redução progressiva desse tecido, embora isso varie de uma pessoa para outra.

Ter adenoide aumentada não significa, por si só, uma doença nem indica cirurgia. O ponto mais importante é entender se esse aumento está atrapalhando a passagem de ar pelo nariz, o sono, a audição ou a qualidade de vida da criança.

Em consultório, avalio a criança como um todo: frequência de sintomas, padrão respiratório durante o dia e à noite, histórico de infecções, desenvolvimento, ouvido e exame do nariz e da garganta. A imagem da adenoide é apenas uma parte da decisão.

Sintomas que levantam a suspeita

O principal sinal relacionado à adenoide em criança é a dificuldade persistente para respirar pelo nariz. No entanto, nariz entupido também pode acontecer por rinite alérgica, infecções virais recorrentes, desvio de septo, aumento dos cornetos nasais ou outras condições. Por isso, não é adequado atribuir toda congestão à adenoide sem avaliação.

Alguns sintomas que merecem investigação são:

  • respiração pela boca durante boa parte do dia;
  • ronco frequente, especialmente quando acontece na maioria das noites;
  • sono agitado, transpiração excessiva durante o sono ou pausas respiratórias observadas pela família;
  • voz anasalada ou fala com sensação de nariz obstruído;
  • dificuldade persistente para manter o nariz livre, mesmo fora de resfriados;
  • secreção nasal prolongada ou recorrente;
  • infecções de ouvido repetidas ou líquido atrás do tímpano, chamado otite média com efusão;
  • redução da audição, desatenção ou pedido frequente para repetir o que foi dito.

A apneia obstrutiva do sono é a interrupção parcial ou completa da respiração durante o sono por fechamento ou estreitamento da via aérea. Crianças com suspeita de apneia precisam de atenção, pois o problema pode afetar o descanso, o comportamento, o aprendizado e, em casos mais relevantes, a saúde cardiovascular e o crescimento.

Nem todo ronco é apneia, mas roncar habitualmente não deve ser considerado normal. Uma criança pode roncar em um resfriado pontual; o que preocupa é a repetição ao longo das semanas, sobretudo quando há pausas, engasgos, sono inquieto ou cansaço diurno.

Em crianças menores, sintomas de sono ruim podem aparecer como irritabilidade, hiperatividade, dificuldade de concentração ou sonolência incomum. Nem sempre a criança vai relatar que dorme mal.

Como a adenoide é avaliada hoje

A avaliação começa com uma conversa detalhada com os responsáveis. Pergunto há quanto tempo os sintomas existem, se há ronco todas as noites, se alguém observa pausas para respirar, como é o rendimento durante o dia e se há episódios de otite ou alterações auditivas.

Depois, faço o exame físico do nariz, garganta, boca, ouvidos e pescoço. Também observo o padrão respiratório da criança em repouso. A presença de boca entreaberta no consultório, por exemplo, pode contribuir para a avaliação, mas não confirma isoladamente uma obstrução por adenoide.

Quando há queixa auditiva, otites recorrentes ou suspeita de líquido no ouvido médio, posso solicitar exames complementares. A audiometria avalia a audição de forma adaptada à idade da criança. Já a imitanciometria, também chamada timpanometria, verifica como o tímpano se movimenta e pode sugerir presença de líquido atrás dele.

Para visualizar a região da adenoide, o exame mais informativo costuma ser a nasofibroscopia. Trata-se da passagem delicada de uma câmera fina e flexível pelo nariz, permitindo observar as estruturas internas em tempo real.

Em crianças colaborativas, o exame geralmente é rápido. Em algumas situações, utilizamos anestésico tópico nasal para reduzir o desconforto. A indicação e a possibilidade de realização devem ser individualizadas, respeitando idade, ansiedade, sintomas e cooperação da criança.

O diagnóstico não deve ser baseado somente em um laudo de exame. Uma adenoide que ocupa uma área importante na nasofibroscopia pode não causar repercussão clínica relevante em determinada criança. Por outro lado, uma obstrução moderada pode ser importante quando se associa a apneia, problemas de ouvido ou sono muito comprometido.

Também avalio doenças que podem coexistir. A rinite alérgica, por exemplo, provoca inflamação da mucosa nasal e aumento dos cornetos, estruturas internas do nariz que ajudam a filtrar, aquecer e umidificar o ar. Quando ela está mal controlada, pode manter a obstrução nasal mesmo após o tratamento da adenoide.

O que a nasofibroscopia mostra que o raio-x não mostra

O raio-x de cavum, uma radiografia lateral da região atrás do nariz, foi usado por muitos anos como recurso para estimar o tamanho da adenoide. Ele ainda pode ser considerado em situações específicas, especialmente quando a nasofibroscopia não é viável. Porém, apresenta limitações importantes.

A radiografia mostra uma imagem bidimensional e indireta. O resultado pode variar conforme a posição da cabeça, a técnica utilizada, o momento da respiração e até a presença de secreção nasal. Além disso, ela não permite observar diretamente o aspecto da mucosa.

A nasofibroscopia mostra a adenoide ao vivo e permite identificar quanto ela ocupa da passagem nasal posterior, chamada coana. Também permite avaliar se há secreção, sinais de inflamação, contato com estruturas próximas e outros possíveis pontos de obstrução no nariz.

Com esse exame, consigo analisar aspectos que o raio-x não detalha adequadamente, como:

  • o grau e o local exato da obstrução da passagem de ar;
  • o aspecto da adenoide, incluindo presença de secreção aderida;
  • os óstios das tubas auditivas, canais que conectam a região posterior do nariz ao ouvido médio;
  • o tamanho dos cornetos nasais;
  • alterações no septo nasal;
  • pólipos nasais ou outras alterações menos comuns.

Isso não significa que toda criança com sintomas nasais precise obrigatoriamente fazer nasofibroscopia. Em alguns casos, a história clínica e o exame físico são suficientes para orientar uma conduta inicial, como tratamento de rinite e acompanhamento. Em outros, especialmente diante de dúvida diagnóstica, sintomas de sono ou otites de repetição, a visualização direta ajuda a decidir com mais segurança.

Não é recomendável indicar cirurgia apenas porque um raio-x descreveu “adenoide aumentada”. A indicação precisa considerar a criança, seus sintomas e os impactos reais daquela obstrução.

Quando a cirurgia entra

A cirurgia para retirada da adenoide é chamada adenoidectomia. Ela pode ser indicada quando o tecido aumentado ou inflamado está associado a consequências clínicas importantes e persistentes.

Entre as situações mais comuns estão a obstrução nasal relevante e contínua, o ronco habitual com suspeita ou confirmação de apneia obstrutiva do sono, as otites recorrentes em determinados contextos e a otite média com efusão persistente acompanhada de impacto auditivo.

Também considero a cirurgia quando há infecções nasais e sinusais recorrentes ou persistentes relacionadas à adenoide, após avaliação cuidadosa e tratamento clínico apropriado. Cada situação exige análise individual, pois “infecção de repetição” pode ter causas diferentes.

A cirurgia NÃO é necessária para toda criança que respira pela boca, ronca ocasionalmente ou apresenta adenoide aumentada em um exame. Quando os sintomas são leves, recentes ou compatíveis com rinite e resfriados frequentes, muitas vezes a melhor abordagem é o tratamento clínico e o acompanhamento.

O tratamento pode incluir higiene nasal com solução salina, controle ambiental de alérgenos, tratamento da rinite quando indicado e acompanhamento da qualidade do sono. Medicamentos nasais, como corticosteroides tópicos, podem ter indicação em casos selecionados, sempre com orientação médica. Eles não devem ser usados por conta própria nem substituem a investigação de pausas respiratórias durante o sono.

Quando a cirurgia é recomendada, explico à família qual problema estamos tentando tratar: melhorar a passagem de ar, reduzir eventos respiratórios no sono, favorecer a ventilação dos ouvidos ou controlar um quadro infeccioso específico. O objetivo não é retirar a adenoide simplesmente por ela existir.

A adenoidectomia é realizada por via oral, sem cortes externos no rosto ou no pescoço. A recuperação costuma ser mais confortável do que a cirurgia de amígdalas, mas pode haver dor de garganta leve, nariz temporariamente mais congestionado, mau hálito transitório e pequena alteração da voz nos primeiros dias. As orientações pós-operatórias são individualizadas.

Cirurgia de adenoide e amígdala: quando são feitas juntas

A adenoide e as amígdalas são tecidos de defesa diferentes, localizados em regiões diferentes. A adenoide fica atrás do nariz; as amígdalas palatinas ficam nas laterais da garganta. Uma pode estar aumentada sem que a outra esteja, e nem sempre é necessário operar ambas.

A retirada conjunta, chamada adenoamigdalectomia, é frequente quando há aumento de amígdalas associado a ronco importante, apneia obstrutiva do sono ou obstrução relevante da garganta durante o sono. Nessa situação, retirar apenas a adenoide pode não resolver adequadamente o estreitamento da via aérea.

Por outro lado, se as amígdalas não são volumosas e não há sinais de obstrução na garganta, pode ser apropriado retirar somente a adenoide. Isso ocorre, por exemplo, em algumas crianças com problemas de ventilação do ouvido médio ou obstrução predominante atrás do nariz.

As amígdalas também podem ter indicação cirúrgica própria quando há amigdalites bacterianas recorrentes que atendem a critérios clínicos específicos, ou complicações como abscesso peritonsilar. Não se indica amigdalectomia apenas porque a criança teve algumas dores de garganta ao longo do ano.

A decisão entre adenoidectomia isolada e cirurgia conjunta depende da história, do exame físico, da avaliação do sono e, quando necessário, de exames complementares. Em crianças com condições clínicas associadas, obesidade, alterações craniofaciais, doenças neuromusculares ou sintomas de apneia mais complexos, o planejamento pode exigir investigação adicional e acompanhamento multidisciplinar.

Meu objetivo é indicar o menor procedimento capaz de tratar o problema identificado, sem deixar de reconhecer quando a combinação das duas cirurgias é a alternativa mais adequada.

Quando procurar um otorrino

  • Ronco na maioria das noites por mais de algumas semanas.
  • Pausas para respirar, engasgos ou esforço respiratório durante o sono.
  • Respiração pela boca persistente mesmo fora de resfriados.
  • Otites repetidas, líquido no ouvido ou suspeita de redução da audição.
  • Sono agitado associado a irritabilidade, sonolência diurna ou dificuldade de atenção.

Em resumo

  • A adenoide é um tecido de defesa atrás do nariz e costuma ser mais ativa na infância.
  • Aumento de adenoide sem sintomas relevantes não exige cirurgia.
  • A nasofibroscopia permite observar diretamente a obstrução e outras estruturas do nariz.
  • Ronco frequente e pausas respiratórias no sono devem ser investigados.
  • A retirada conjunta de adenoide e amígdalas depende da causa e do local da obstrução.

Perguntas frequentes

Adenoide volta a crescer depois da cirurgia?+

Pode haver crescimento de tecido adenoideano remanescente após a cirurgia, mas isso não é o mais comum e nem sempre provoca sintomas. O risco tende a ser maior em crianças operadas muito pequenas e em quem mantém inflamação nasal, rinite alérgica ou infecções frequentes. Quando os sintomas retornam, é importante reavaliar, pois nem toda obstrução nasal após a cirurgia significa que a adenoide cresceu novamente. Cornetos aumentados, rinite, sinusite e outras causas também precisam ser considerados.

Raio-x é suficiente para o diagnóstico?+

O raio-x de cavum pode sugerir aumento da adenoide, mas não deve ser interpretado isoladamente. Ele fornece uma imagem indireta e tem limitações técnicas. A avaliação clínica e, quando indicada, a nasofibroscopia oferecem informações mais completas sobre a passagem de ar, o aspecto da adenoide e outras causas de obstrução nasal. Em algumas crianças, o raio-x pode ser útil quando não é possível realizar a endoscopia nasal, mas a indicação de cirurgia não deve depender apenas dele.

Adenoide causa atraso na fala?+

A adenoide não costuma causar atraso de fala diretamente. Porém, se estiver associada a líquido persistente no ouvido médio e redução da audição, pode interferir na percepção dos sons da fala, especialmente nos primeiros anos de desenvolvimento de linguagem. A obstrução nasal também pode deixar a voz mais anasalada ou abafada, o que é diferente de atraso de linguagem. Diante de atraso na fala, avalio a audição e considero outras causas do desenvolvimento junto à equipe pediátrica e, quando necessário, à fonoaudiologia.

Meu filho tem 'cara de adenoide', o que significa?+

Essa expressão popular costuma descrever uma criança que permanece com a boca aberta, tem lábios ressecados, respira pela boca e, às vezes, apresenta alterações na posição da língua ou dos dentes. Esses sinais podem sugerir obstrução nasal persistente, mas não confirmam adenoide aumentada. Rinite, cornetos nasais aumentados e outros fatores também podem levar à respiração oral. A avaliação deve ser feita por otorrinolaringologista e, conforme o caso, pode envolver odontopediatria, ortodontia e fonoaudiologia.

A cirurgia é feita com anestesia geral?+

Sim. A cirurgia de adenoide é realizada com anestesia geral, o que permite que a criança durma durante todo o procedimento, sem dor ou lembrança da operação. Antes da cirurgia, é feita avaliação pré-anestésica para revisar histórico de saúde, alergias, medicamentos em uso e exames que sejam necessários. O procedimento é realizado em ambiente hospitalar, com monitorização contínua. A equipe orienta previamente sobre jejum, cuidados após a alta e sinais que exigem contato médico.

Dra. Aléxia Garcia

Dra. Aléxia Rezende Garcia

Otorrinolaringologista · Plástica Facial · CRM-MG 101.318 · RQE 68106

Atendo em Uberlândia — MG, com foco em respiração, sono e cirurgia nasal funcional e estética. Explico cada indicação antes de propor qualquer cirurgia.

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Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a consulta médica. Diagnóstico e tratamento dependem de avaliação individual.

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