Roncar ocasionalmente durante um resfriado pode acontecer. Porém, ronco frequente, alto ou acompanhado de pausas para respirar, sono agitado e cansaço diurno precisa ser investigado. Em crianças, esse quadro pode estar relacionado à obstrução das vias aéreas durante o sono e não deve ser ignorado.
O ronco na infância é comum?
O ronco infantil é o ruído produzido quando o ar passa por uma região parcialmente estreitada das vias respiratórias durante o sono. Ele pode ocorrer de forma passageira, por exemplo, em períodos de gripe, resfriado ou crise de rinite alérgica.
Quando aparece apenas ocasionalmente e desaparece junto com a congestão nasal, em geral não indica um problema permanente. Ainda assim, vale observar como a criança dorme, pois o ronco não é considerado uma parte normal do sono saudável quando se torna habitual.
Chamamos de ronco habitual aquele que ocorre na maior parte das noites, geralmente três ou mais vezes por semana. Nessa situação, é importante avaliar se há outros sinais de dificuldade para respirar dormindo.
Uma parcela das crianças que roncam apresenta apneia obstrutiva do sono, que são pausas ou reduções importantes da respiração causadas por bloqueio parcial ou completo da passagem de ar. Mas nem toda criança que ronca tem apneia. Há também o chamado ronco primário, sem pausas respiratórias ou repercussões identificáveis.
Mesmo assim, não é possível diferenciar essas situações apenas pelo barulho. A observação dos pais e uma avaliação clínica ajudam a entender se o ronco é transitório, se merece acompanhamento ou se há necessidade de investigação mais detalhada.
Que sinais mostram que o ronco está atrapalhando o sono
O principal ponto não é somente se a criança ronca, mas como ela respira e se comporta ao dormir e durante o dia. Algumas crianças dormem muitas horas, mas têm sono fragmentado: fazem pequenos despertares para retomar a respiração, muitas vezes sem que a família perceba.
Durante a noite, observo com atenção relatos de:
- pausas na respiração, suspiros, engasgos ou despertares assustados;
- sono muito inquieto, com mudanças constantes de posição;
- respiração pela boca, boca seca ao acordar ou necessidade de dormir com o pescoço estendido;
- suor excessivo durante o sono, sem relação com calor no ambiente;
- ronco alto e persistente, que pode ser ouvido fora do quarto;
- sono com esforço para respirar, como afundamento entre as costelas ou na região do pescoço.
Os sinais diurnos também são relevantes. Algumas crianças ficam sonolentas, têm dificuldade para acordar ou cochilam em horários incomuns. Outras, em vez de sonolência, apresentam irritabilidade, agitação, impulsividade ou dificuldade de concentração. Isso pode ser confundido com alterações comportamentais isoladas.
Dor de cabeça pela manhã, enurese noturna — perda involuntária de urina durante o sono em uma criança que já tinha controle — e queda do rendimento escolar também podem estar associados a sono de má qualidade, embora tenham diversas outras causas possíveis.
É útil que os responsáveis façam um vídeo curto da criança dormindo, especialmente quando há pausas, esforço respiratório ou ronco intenso. Esse registro não substitui a consulta, mas pode tornar a descrição mais objetiva.
O que costuma estar por trás (amígdala, adenoide, rinite, obesidade)
A causa mais frequente de ronco persistente na infância é o aumento das amígdalas e da adenoide. As amígdalas são tecidos de defesa localizados no fundo da garganta. A adenoide é um tecido semelhante, situado atrás do nariz, em uma área que não conseguimos ver diretamente ao abrir a boca.
Essas estruturas participam do sistema de defesa do organismo e podem aumentar naturalmente ao longo da infância. Quando ficam muito volumosas, reduzem o espaço de passagem do ar pelo nariz e pela garganta, especialmente durante o sono, quando a musculatura relaxa.
A rinite alérgica também é uma causa muito comum. Ela provoca inflamação da mucosa nasal, espirros, coceira, coriza e obstrução do nariz. Uma criança com nariz constantemente entupido tende a respirar pela boca e pode roncar, mesmo sem aumento importante de amígdalas ou adenoide.
Nesses casos, o tratamento clínico da rinite, com controle de gatilhos e medicamentos quando indicados, pode melhorar a respiração noturna. Rinite não precisa de cirurgia na maioria das situações. Da mesma forma, um episódio isolado de ronco durante infecção viral geralmente não exige procedimento cirúrgico.
A obesidade é outro fator importante porque favorece o estreitamento das vias aéreas e aumenta o risco de apneia obstrutiva do sono. O cuidado envolve acompanhamento multiprofissional, com pediatra, orientação nutricional e estímulo a hábitos compatíveis com a idade. Não se trata de responsabilizar a criança ou a família, mas de reconhecer um fator de saúde que pode ser tratado.
Outras condições podem contribuir, como alterações na anatomia do nariz, desvio do septo em casos selecionados, malformações craniofaciais, hipotonia muscular — redução do tônus dos músculos — e algumas síndromes genéticas. Crianças com síndrome de Down, por exemplo, precisam de atenção especial para distúrbios respiratórios do sono, mesmo quando os sintomas parecem discretos.
Como é a avaliação com o otorrino
Na consulta, começo ouvindo a história com cuidado. Pergunto há quanto tempo o ronco existe, em quantas noites ocorre, se piora em determinadas épocas do ano, se há pausas respiratórias e como a criança funciona durante o dia. Também avalio antecedentes de alergias, infecções, ganho de peso, medicamentos e desenvolvimento infantil.
O exame físico inclui a avaliação do nariz, da boca, da garganta, das amígdalas, do palato, da arcada dentária e do pescoço. Observo sinais de respiração oral e procuro entender se existe obstrução nasal persistente.
Em algumas situações, faço ou solicito uma nasofibroscopia. É um exame com uma câmera fina e flexível que permite visualizar o interior do nariz e a região da adenoide. Pode ser especialmente útil quando há suspeita de aumento adenoideano. O procedimento é rápido e, em crianças, é adaptado à idade e à colaboração de cada paciente.
Nem toda criança precisa fazer nasofibroscopia. Muitas vezes, a combinação entre história clínica e exame físico já orienta a conduta. Também não é necessário operar toda criança com amígdalas grandes: o tamanho isolado não define a necessidade de cirurgia. O que pesa é o impacto sobre a respiração, o sono, a alimentação, as infecções recorrentes e a qualidade de vida.
Quando identifico rinite ou outra condição nasal, o tratamento pode incluir lavagem nasal com solução salina, medidas para reduzir exposição a alérgenos e medicamentos prescritos conforme o quadro. Esses cuidados devem ser individualizados; descongestionantes nasais de uso contínuo não são uma solução segura para crianças.
Quando o exame do sono é pedido
O principal exame para investigar apneia é a polissonografia, também chamada de estudo do sono. Ela registra, durante uma noite, parâmetros como fluxo de ar, esforço para respirar, oxigenação do sangue, frequência cardíaca, movimentos e estágios do sono.
A polissonografia ajuda a confirmar se há apneia, medir sua intensidade e identificar quedas de oxigenação ou fragmentação do sono. Ela é particularmente indicada quando os sintomas não são claros, quando o exame físico não explica a intensidade do ronco ou quando a criança apresenta fatores de maior risco.
Costumo considerar esse exame com mais atenção em crianças com obesidade, síndromes genéticas, doenças neuromusculares, alterações craniofaciais, paralisia cerebral ou problemas cardíacos e pulmonares. Também pode ser importante antes ou depois de uma cirurgia em casos selecionados.
Nem todos os pacientes precisam realizar polissonografia antes de iniciar uma conduta. Quando há sintomas bastante sugestivos e aumento importante de amígdalas e adenoide, a decisão pode ser tomada com base na avaliação clínica. A indicação deve ser individual, considerando os benefícios, a disponibilidade do exame e a segurança da criança.
O que acontece se o ronco não for avaliado
O ronco ocasional associado a um resfriado e que desaparece não costuma trazer consequências. O problema é deixar sem avaliação uma criança que ronca frequentemente e apresenta sinais de obstrução respiratória durante o sono.
Quando há apneia ou sono repetidamente interrompido, a criança pode não alcançar a quantidade e a qualidade de sono necessárias para seu desenvolvimento. Isso pode se manifestar por irritabilidade, alterações de atenção, dificuldade escolar e mudanças de comportamento.
Também pode haver impacto no crescimento. Durante o sono, ocorrem processos importantes de recuperação do organismo e liberação de hormônios relacionados ao desenvolvimento. Crianças com obstrução importante podem gastar mais energia para respirar, ter alimentação prejudicada ou apresentar ganho ponderal inadequado. Isso não acontece em todos os casos, mas é uma razão para não banalizar os sintomas.
Nos quadros mais relevantes e prolongados, a apneia pode sobrecarregar o sistema cardiovascular e causar alterações na pressão arterial pulmonar. Essas complicações são menos comuns, mas reforçam a importância de reconhecer os casos que precisam de tratamento.
A boa notícia é que há abordagens diferentes conforme a causa: controle de rinite, manejo do peso quando necessário, acompanhamento do sono e, em casos indicados, cirurgia para retirada de amígdalas e adenoide. A adenotonsilectomia é a cirurgia de remoção dessas estruturas e pode ser indicada quando a obstrução por seu aumento está causando repercussões significativas.
Meu objetivo na avaliação é identificar o que está interferindo na respiração da criança e propor a opção mais adequada. Nem todo ronco exige cirurgia, mas ronco persistente com sinais de sono não reparador merece atenção médica.
Quando procurar um otorrino
- Ronco em três ou mais noites por semana, por semanas ou meses.
- Pausas respiratórias, engasgos, sufocação ou esforço visível para respirar dormindo.
- Respiração pela boca persistente, mesmo fora de resfriados.
- Sono muito agitado, sudorese noturna ou despertares frequentes.
- Sonolência, irritabilidade, dificuldade de atenção ou queda no desempenho escolar.
Em resumo
- Ronco ocasional em resfriados pode ser transitório, mas ronco habitual deve ser avaliado.
- Pausas respiratórias e esforço para respirar durante o sono são sinais importantes.
- Amígdalas, adenoide, rinite e obesidade estão entre as causas mais frequentes.
- Nem toda criança que ronca tem apneia e nem todo caso precisa de cirurgia.
- A conduta depende da causa, dos sintomas e das repercussões no sono e no desenvolvimento.
Perguntas frequentes
Toda criança que ronca tem apneia?+
Não. Algumas crianças têm ronco primário, sem pausas respiratórias nem alterações relevantes identificadas no sono. Porém, o ronco habitual pode ser um sinal de apneia obstrutiva do sono, especialmente quando vem acompanhado de engasgos, pausas para respirar, sono inquieto, suor noturno ou alterações diurnas de comportamento e atenção. Só a avaliação clínica e, quando indicado, o exame do sono conseguem diferenciar essas situações com segurança.
Com que idade isso costuma aparecer?+
O ronco pode aparecer em qualquer fase da infância, inclusive em bebês, mas a apneia obstrutiva relacionada ao aumento de amígdalas e adenoide é mais observada na idade pré-escolar e escolar. Isso coincide com um período em que esses tecidos podem estar naturalmente mais aumentados. Em adolescentes, a obesidade passa a ter maior relevância como fator associado. Independentemente da idade, ronco frequente com dificuldade respiratória durante o sono merece avaliação.
Ronco atrapalha o crescimento?+
O ronco isolado e ocasional não costuma interferir no crescimento. Já quando existe obstrução persistente das vias aéreas ou apneia do sono, a qualidade do sono pode ficar prejudicada. Em alguns casos, a criança pode gastar mais energia para respirar, alimentar-se pior ou ter alterações em processos hormonais que ocorrem durante o sono. Por isso, crianças com ronco habitual, baixo ganho de peso ou cansaço frequente precisam ser avaliadas de forma individual.
Meu filho respira de boca aberta dormindo, é sinal?+
Pode ser um sinal de obstrução nasal ou dificuldade para respirar adequadamente pelo nariz, sobretudo se acontece de forma persistente e não apenas durante resfriados. Rinite alérgica, aumento de adenoide e outras alterações nasais podem favorecer a respiração oral. Vale observar se há ronco, boca seca ao acordar, sono agitado, voz anasalada ou nariz entupido com frequência. A respiração pela boca isoladamente não define uma doença, mas merece investigação quando é contínua.
Preciso ir a um otorrino ou ao pediatra primeiro?+
O pediatra pode ser o primeiro profissional a avaliar, pois acompanha o crescimento, o desenvolvimento e as condições gerais de saúde da criança. Quando há ronco habitual, pausas respiratórias, respiração oral persistente ou suspeita de aumento de amígdalas, o otorrinolaringologista contribui com a avaliação detalhada das vias aéreas. Na prática, os acompanhamentos são complementares. Se os sinais noturnos forem claros ou preocupantes, a avaliação otorrinolaringológica pode ser procurada diretamente.

Dra. Aléxia Rezende Garcia
Otorrinolaringologista · Plástica Facial · CRM-MG 101.318 · RQE 68106
Atendo em Uberlândia — MG, com foco em respiração, sono e cirurgia nasal funcional e estética. Explico cada indicação antes de propor qualquer cirurgia.
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Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a consulta médica. Diagnóstico e tratamento dependem de avaliação individual.




