Ronco e apneia do sono

Apneia do sono: o que acontece no corpo enquanto você dorme

Dra. Aléxia Rezende GarciaCRM-MG 101.318RQE 6810617 de junho de 20265 min de leitura
Apneia do sono: o que acontece no corpo enquanto você dorme

Durante a apneia do sono, a respiração para ou diminui repetidamente por estreitamentos das vias aéreas. O organismo reage com quedas de oxigênio, microdespertares e aumento do esforço cardíaco. Ao longo do tempo, isso pode comprometer disposição, pressão arterial, memória, humor e segurança nas atividades diárias.

O que é a apneia obstrutiva do sono

A apneia obstrutiva do sono é um distúrbio em que a passagem de ar pela garganta se fecha parcial ou totalmente diversas vezes durante o sono. A palavra apneia significa uma pausa na respiração; quando há apenas redução importante do fluxo de ar, chamamos de hipopneia.

Durante o sono, os músculos da garganta relaxam naturalmente. Em algumas pessoas, a língua, o palato mole (parte posterior e flexível do céu da boca), as amígdalas ou as paredes da faringe reduzem demais o espaço por onde o ar deveria passar. A pessoa continua tentando respirar, mas o ar encontra uma barreira.

O ronco pode ser um sinal desse estreitamento, pois é produzido pela vibração dos tecidos da garganta. Entretanto, roncar não significa obrigatoriamente ter apneia, e nem toda pessoa com apneia apresenta um ronco intenso percebido pela família.

A condição pode ocorrer em adultos de diferentes biotipos, inclusive em pessoas sem obesidade. Ganho de peso, circunferência aumentada do pescoço, alterações anatômicas nasais ou da garganta, álcool à noite, sedativos, tabagismo e história familiar podem aumentar o risco. Mulheres também podem desenvolver apneia, especialmente após a menopausa.

O que acontece a cada pausa respiratória

Quando a via aérea se estreita ou fecha, o oxigênio no sangue pode cair. Ao mesmo tempo, o cérebro percebe a dificuldade respiratória e provoca um breve despertar, chamado microdespertar. Na maior parte das vezes, a pessoa não se recorda dele pela manhã.

Esse despertar faz com que os músculos da garganta recuperem o tônus, permitindo a retomada do ar, muitas vezes acompanhada de um engasgo, suspiro ou ronco alto. Em seguida, a pessoa volta a dormir e o ciclo pode recomeçar.

Em exames do sono, avaliamos quantas apneias e hipopneias ocorrem por hora por meio do índice de apneia-hipopneia. Esse dado ajuda a classificar a gravidade, mas sempre deve ser interpretado junto com os sintomas, a oxigenação e as doenças associadas.

O problema não é apenas a falta de ar em si. A fragmentação do sono impede que a pessoa mantenha adequadamente fases importantes, como o sono profundo e o sono REM, fase ligada à consolidação de memórias e à regulação emocional. Por isso, é possível passar muitas horas na cama e ainda acordar sem sensação de descanso.

Alguns sinais noturnos merecem atenção: pausas respiratórias testemunhadas, sono inquieto, sudorese excessiva, acordar com falta de ar, necessidade frequente de urinar à noite e refluxo. Pela manhã, dor de cabeça, boca seca e cansaço também podem estar presentes.

Efeitos no coração, na pressão e no metabolismo

A cada evento respiratório, há oscilações de oxigênio e ativação do sistema nervoso simpático, responsável pela resposta de alerta do organismo. Isso pode elevar temporariamente os batimentos cardíacos e a pressão arterial durante a noite.

Quando esse padrão se repete por meses ou anos, a apneia obstrutiva do sono pode contribuir para hipertensão arterial, especialmente quando a pressão permanece elevada apesar do uso regular de medicamentos. Também está associada a maior risco cardiovascular, incluindo arritmias, doença coronariana, acidente vascular cerebral e insuficiência cardíaca.

Isso não significa que toda pessoa com apneia terá infarto ou AVC. Esses desfechos dependem de vários fatores, como idade, tabagismo, diabetes, colesterol, pressão arterial e histórico familiar. Ainda assim, investigar e tratar a apneia faz parte de uma estratégia importante de redução de risco.

A fragmentação do sono e as alterações hormonais relacionadas à privação de sono também podem dificultar o controle da glicose e aumentar a resistência à insulina, situação em que o organismo responde menos adequadamente a esse hormônio. Pessoas com diabetes podem ter mais dificuldade em controlar a doença quando dormem mal de forma persistente.

A apneia não deve ser entendida como uma questão exclusiva de peso. O excesso de peso pode agravar o colapso da via aérea, e a redução ponderal costuma ajudar quando indicada, mas alterações anatômicas e outros fatores também precisam ser avaliados individualmente.

Efeitos na memória, no humor e na segurança

O sono interrompido repetidamente reduz atenção sustentada, velocidade de raciocínio e capacidade de concentração. É comum ouvir relatos de esquecimento, dificuldade para organizar tarefas, irritabilidade e queda de rendimento profissional ou acadêmico.

Sonolência excessiva durante o dia é um dos sintomas mais relevantes. A pessoa pode cochilar assistindo televisão, em reuniões, após o almoço ou, de forma mais perigosa, ao dirigir. A apneia do sono está relacionada a maior risco de acidentes de trânsito e de trabalho, sobretudo quando há sonolência não reconhecida ou subestimada.

Alterações de humor, ansiedade e sintomas depressivos podem coexistir com o distúrbio. Nem sempre a apneia é a única explicação para esses quadros, mas a qualidade do sono precisa ser investigada quando há cansaço persistente e sintomas emocionais.

Em crianças, os sinais podem ser diferentes. Além de ronco, podem ocorrer respiração pela boca, sono agitado, enurese noturna, hiperatividade ou dificuldade de aprendizagem. Nesses casos, amígdalas e adenoide aumentadas são causas frequentes e a avaliação otorrinolaringológica é importante.

Como o diagnóstico é feito

O diagnóstico começa pela conversa clínica. Eu avalio queixas de ronco, pausas respiratórias observadas, despertares, sono não reparador, sonolência diurna, uso de medicamentos e presença de doenças como hipertensão, diabetes e arritmias.

O exame físico inclui avaliação do nariz, cavidade oral, palato, amígdalas, língua, mandíbula e pescoço. Obstrução nasal pode piorar a respiração e a tolerância a alguns tratamentos, mas nem toda alteração nasal é a causa principal da apneia.

A confirmação costuma ser feita por um estudo do sono. A polissonografia é o exame mais completo: registra respiração, oxigenação, esforço para respirar, estágios do sono, ronco, movimentos e outros parâmetros durante a noite. Pode ser realizada em laboratório ou, em situações selecionadas, no domicílio.

O teste domiciliar simplificado pode ser útil em adultos com alta suspeita de apneia obstrutiva sem outras condições complexas. Porém, um resultado normal ou inconclusivo não exclui o problema quando os sintomas são sugestivos. Nessa situação, a polissonografia pode ser necessária.

O que muda com o tratamento

O tratamento é definido conforme gravidade, sintomas, anatomia da via aérea, doenças associadas e preferências da pessoa. O objetivo é manter a passagem de ar aberta, reduzir eventos respiratórios e melhorar a qualidade do sono.

O CPAP, sigla em inglês para pressão positiva contínua nas vias aéreas, fornece ar sob pressão por uma máscara e evita o colapso da garganta. É uma opção muito eficaz quando bem indicada e adaptada. Ajuste de máscara, umidificação e acompanhamento fazem diferença para o conforto e a adesão.

Mas apneia não significa, necessariamente, uso obrigatório de CPAP para todas as pessoas. Em casos selecionados, podem ser considerados aparelhos intraorais confeccionados por dentista habilitado, terapia posicional para quem piora ao dormir de barriga para cima, redução de peso quando indicada e controle de álcool ou sedativos no período noturno.

Cirurgia não é necessária para todos. Ela pode ter indicação quando há alterações anatômicas específicas, como amígdalas muito aumentadas, obstrução nasal relevante ou alterações da face e da garganta avaliadas caso a caso. A decisão não deve se basear apenas no ronco e precisa considerar o resultado do exame do sono.

O acompanhamento após iniciar qualquer tratamento é essencial. Além da melhora percebida, avaliamos dados objetivos, controle da sonolência, pressão arterial e adequação da estratégia ao longo do tempo.

Quando procurar um otorrino

  • Pausas respiratórias, engasgos ou sufocação observados durante o sono
  • Sonolência ao dirigir, trabalhar ou realizar atividades que exigem atenção
  • Ronco frequente associado a cansaço ao acordar ou dor de cabeça matinal
  • Hipertensão de difícil controle, arritmia ou doença cardiovascular com suspeita de sono ruim
  • Criança com ronco habitual, respiração pela boca ou sono muito agitado

Em resumo

  • A apneia obstrutiva do sono causa pausas respiratórias e microdespertares repetidos.
  • O problema pode afetar pressão arterial, coração, glicose, memória, humor e segurança ao dirigir.
  • Ronco é um sinal possível, mas não confirma nem exclui o diagnóstico.
  • A polissonografia ou o teste domiciliar, quando indicado, ajudam a confirmar e graduar a condição.
  • O tratamento é individualizado e pode incluir CPAP, medidas comportamentais, aparelho intraoral ou cirurgia em situações específicas.

Perguntas frequentes

Apneia só acontece em quem é obeso?+

Não. O excesso de peso é um fator de risco importante porque pode favorecer o estreitamento da via aérea durante o sono, mas a apneia também ocorre em pessoas magras. Formato da mandíbula, tamanho das amígdalas, posição da língua, características do palato, obstrução nasal, envelhecimento, menopausa, álcool e histórico familiar podem participar do quadro. Por isso, não é adequado descartar a investigação apenas pelo peso ou pelo biotipo.

Apneia pode causar infarto?+

A apneia obstrutiva do sono está associada a maior risco de doença cardiovascular, incluindo infarto, especialmente quando é moderada ou grave, permanece sem tratamento e coexistem fatores como hipertensão, diabetes, tabagismo e colesterol elevado. As quedas repetidas de oxigênio e os picos de pressão sobrecarregam o sistema cardiovascular. Isso não quer dizer que a apneia cause infarto em todas as pessoas, mas tratá-la adequadamente integra a prevenção cardiovascular.

Quem ronca pouco pode ter apneia?+

Sim. Embora o ronco seja frequente na apneia obstrutiva do sono, sua intensidade pode variar de uma noite para outra e nem sempre é percebida por quem dorme perto. Algumas pessoas apresentam mais despertares, engasgos, sono inquieto, cansaço matinal ou sonolência diurna do que ronco intenso. Além disso, o ronco isolado não confirma apneia. Quando há suspeita clínica, o exame do sono é a forma adequada de verificar se existem pausas respiratórias.

Apneia tem tratamento sem CPAP?+

Sim, em situações selecionadas. Dependendo da gravidade, do padrão observado no exame do sono e da anatomia da via aérea, o tratamento pode incluir redução de peso quando indicada, evitar álcool e sedativos à noite, terapia posicional, aparelho intraoral e correção de alterações anatômicas específicas. Cirurgia pode ser útil em alguns casos, mas não é necessária para todos. O CPAP continua sendo uma alternativa muito eficaz, especialmente em apneia moderada a grave, e a escolha deve ser individualizada.

Dormir mal todo dia já é apneia?+

Não necessariamente. Dormir mal pode ocorrer por insônia, ansiedade, depressão, dor crônica, refluxo, uso de substâncias, síndrome das pernas inquietas, alterações do ritmo circadiano e diversos outros motivos. A apneia é suspeitada quando existem sintomas como ronco frequente, pausas respiratórias observadas, engasgos noturnos, sono não reparador e sonolência diurna. Como os sintomas podem se sobrepor, a avaliação médica e, quando indicado, o estudo do sono ajudam a esclarecer a causa.

Dra. Aléxia Garcia

Dra. Aléxia Rezende Garcia

Otorrinolaringologista · Plástica Facial · CRM-MG 101.318 · RQE 68106

Atendo em Uberlândia — MG, com foco em respiração, sono e cirurgia nasal funcional e estética. Explico cada indicação antes de propor qualquer cirurgia.

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