Ronco e apneia do sono

Ronco no adulto: quando é só incômodo e quando é sinal de apneia

Dra. Aléxia Rezende GarciaCRM-MG 101.318RQE 6810601 de abril de 20268 min de leitura
Ronco no adulto: quando é só incômodo e quando é sinal de apneia

O ronco adulto pode ser apenas um ruído causado pela vibração dos tecidos da garganta durante o sono. Porém, quando vem acompanhado de pausas respiratórias, sono não reparador, sonolência diurna ou despertares com falta de ar, pode indicar apneia obstrutiva do sono e merece investigação médica.

Por que roncamos

O ronco adulto acontece quando o ar encontra dificuldade para passar pelas vias respiratórias durante o sono. Ao atravessar uma região mais estreita, o fluxo de ar faz vibrar estruturas moles, como o palato mole, a úvula, as amígdalas e a base da língua. Essa vibração produz o som do ronco.

Durante o sono, a musculatura da garganta naturalmente relaxa. Em algumas pessoas, esse relaxamento reduz mais o espaço disponível para a passagem de ar. O ronco tende a ser mais intenso quando a pessoa dorme de barriga para cima, porque a língua e os tecidos da garganta podem se deslocar para trás.

Há diversos fatores que podem contribuir para o estreitamento da via aérea:

  • ganho de peso e aumento da circunferência do pescoço;
  • obstrução nasal persistente, por rinite, desvio de septo ou aumento dos cornetos nasais;
  • aumento das amígdalas, inclusive em adultos;
  • alterações do palato mole e da anatomia da mandíbula;
  • uso de álcool à noite;
  • medicamentos sedativos, quando indicados para outras condições;
  • tabagismo;
  • privação de sono;
  • envelhecimento, que pode reduzir o tônus muscular da faringe.

Nem todo ronco significa doença. Algumas pessoas roncam ocasionalmente após ingerir álcool, dormir pouco ou apresentar uma infecção respiratória. Esse quadro costuma ser transitório. Já o ronco habitual, presente na maioria das noites, merece uma avaliação mais cuidadosa, especialmente se houver impacto no descanso, no convívio familiar ou sinais de dificuldade respiratória durante o sono.

Os sinais que separam ronco simples de apneia

No ronco simples, há ruído, mas a respiração se mantém relativamente contínua e o sono costuma ser preservado. Na apneia obstrutiva do sono, ou AOS, ocorre o fechamento parcial ou completo repetido da garganta enquanto a pessoa dorme. A apneia é a interrupção do fluxo de ar; a hipopneia é uma redução relevante desse fluxo, geralmente acompanhada de queda de oxigenação ou de despertar breve.

Quem tem apneia pode não perceber os episódios, porque eles acontecem durante o sono. Muitas vezes, o parceiro ou familiar observa períodos de silêncio após o ronco, seguidos por um ronco forte, engasgo, suspiro ou retomada abrupta da respiração.

Alguns sinais aumentam a suspeita de apneia:

  • pausas respiratórias observadas durante o sono;
  • despertares com sensação de sufocamento, falta de ar ou palpitações;
  • ronco frequente e irregular, alternando ruído intenso e silêncio;
  • sono agitado, com muitos despertares;
  • sonolência excessiva durante o dia;
  • dificuldade de concentração, irritabilidade ou queda de memória;
  • cefaleia ao acordar;
  • boca seca pela manhã;
  • necessidade frequente de urinar à noite;
  • pressão arterial difícil de controlar.

A intensidade do ronco, isoladamente, não define a gravidade. Há pessoas com ronco muito alto sem apneia e outras com apneia importante que não roncam de forma tão chamativa. O ponto principal é verificar se existem obstruções repetidas, alterações na oxigenação e fragmentação do sono.

Também considero importante avaliar o risco de sonolência ao volante ou durante o trabalho. Cochilar involuntariamente em situações que exigem atenção, como dirigir, operar máquinas ou participar de reuniões, não deve ser normalizado. Pode ser consequência de sono insuficiente, mas também é um sinal possível de apneia.

Riscos de deixar a apneia sem tratamento

A apneia obstrutiva do sono fragmenta o descanso. A pessoa pode passar horas na cama, mas seu cérebro é repetidamente ativado para restabelecer a respiração. Muitas dessas ativações são tão breves que não são lembradas pela manhã, embora prejudiquem a qualidade do sono.

Além do cansaço, os episódios recorrentes de obstrução podem provocar quedas e oscilações de oxigênio no sangue. Esse padrão gera maior ativação do sistema cardiovascular durante a noite. Ao longo do tempo, a apneia não tratada está associada a maior risco de hipertensão arterial, arritmias, doença coronariana, acidente vascular cerebral e pior controle de doenças cardiovasculares já existentes.

A relação com alterações metabólicas também merece atenção. A apneia pode dificultar o controle da glicemia em pessoas com diabetes e se associar a resistência à insulina. Ela não é a única causa desses problemas, mas pode ser um fator importante no conjunto de riscos de cada paciente.

No cotidiano, o sono não reparador pode afetar humor, memória, produtividade e relações pessoais. Há ainda aumento do risco de acidentes de trânsito e de trabalho quando existe sonolência excessiva. Em idosos, a avaliação deve ser individualizada, pois queixas cognitivas, alterações de humor e despertares noturnos podem ter mais de uma causa.

Nem toda pessoa que ronca precisa de cirurgia ou de um tratamento complexo. Mas, quando a investigação confirma apneia, tratar adequadamente é uma medida de saúde que vai além de reduzir o barulho noturno.

Como é feito o diagnóstico

A avaliação começa com uma conversa detalhada sobre o sono. Eu procuro entender há quanto tempo o ronco ocorre, se existem pausas respiratórias observadas, como é a disposição durante o dia, quais medicamentos são usados e se há doenças como hipertensão, diabetes, refluxo ou problemas cardíacos.

Também avalio fatores anatômicos. O exame otorrinolaringológico inclui nariz, boca, amígdalas, palato, língua, mandíbula e pescoço. Quando necessário, faço endoscopia nasal, exame realizado com uma câmera fina e flexível para observar por dentro o nariz e a região posterior da garganta. Esse exame ajuda a identificar obstruções nasais e outras alterações estruturais.

Entretanto, o exame físico sozinho não confirma nem exclui apneia. O diagnóstico depende de um estudo do sono. A polissonografia é o exame mais completo: registra respiração, oxigenação, atividade cerebral, movimentos corporais, batimentos cardíacos e estágios do sono.

Em situações selecionadas, pode-se utilizar o teste domiciliar de apneia do sono. Ele registra principalmente parâmetros respiratórios e de oxigenação na própria casa do paciente. Pode ser útil quando há alta suspeita clínica de apneia obstrutiva sem outras doenças complexas. Porém, um resultado normal ou inconclusivo não exclui o problema em todos os casos.

O laudo costuma informar o índice de apneia e hipopneia, conhecido pela sigla IAH. Ele representa o número médio de eventos respiratórios por hora de sono ou de registro, conforme o método empregado. A interpretação não deve se basear apenas nesse número: sintomas, quedas de oxigênio, doenças associadas e características individuais também orientam a conduta.

Opções de tratamento hoje

O tratamento é individualizado. Ele depende da gravidade da apneia, dos sintomas, da anatomia da via aérea, do peso, das doenças associadas e da adaptação de cada pessoa às alternativas disponíveis.

Para casos leves ou como parte do cuidado em qualquer gravidade, mudanças de hábitos podem trazer benefício. Isso inclui regularizar horários de sono, evitar álcool nas horas antes de dormir, revisar com o médico o uso de sedativos, tratar tabagismo e buscar redução de peso quando houver indicação. Emagrecer pode diminuir o ronco e a apneia, mas não substitui a investigação nem garante que a obstrução desapareça.

A terapia posicional pode ajudar quem apresenta piora predominante ao dormir de barriga para cima. Estratégias para manter o sono lateral podem reduzir eventos em pessoas selecionadas. Ainda assim, é preciso confirmar se essa medida controla adequadamente a apneia no exame do sono.

O CPAP, sigla em inglês para pressão positiva contínua nas vias aéreas, é um aparelho que fornece ar sob pressão por uma máscara durante o sono. Essa pressão mantém a garganta aberta e é um dos tratamentos mais eficazes para apneia moderada a grave. A adaptação melhora quando a máscara é bem escolhida, a pressão é ajustada corretamente e desconfortos como congestão nasal ou vazamentos são tratados.

Outra alternativa, principalmente em casos leves a moderados e em algumas situações específicas, é o aparelho intraoral de avanço mandibular. Ele é confeccionado por profissional habilitado e desloca a mandíbula levemente para frente, aumentando o espaço da via aérea. Nem todo paciente é candidato: é necessário avaliar dentição, articulação temporomandibular e padrão de obstrução.

O tratamento nasal pode ser importante quando há rinite ou obstrução estrutural. Lavagem nasal com solução salina, controle da rinite e medicamentos prescritos podem melhorar a respiração pelo nariz e favorecer a adaptação ao CPAP. Cirurgias como septoplastia ou redução de cornetos podem ter indicação para obstrução nasal persistente, mas não devem ser apresentadas como solução automática para toda apneia.

A cirurgia da garganta pode ser considerada em casos selecionados, especialmente quando há alteração anatômica bem definida, como amígdalas muito aumentadas, ou quando outras abordagens não são adequadas. Existem diferentes técnicas, e a indicação exige estudo individual. Digo isso com clareza: muitas pessoas que roncam não precisam de cirurgia. Quando ela é proposta, o objetivo, os limites e as alternativas precisam ser discutidos de forma realista.

Em alguns pacientes com obesidade e apneia, o cuidado conjunto com clínica médica, endocrinologia, nutrição e atividade física faz parte do tratamento. A abordagem costuma ser mais efetiva quando considera a saúde global, e não apenas o sintoma do ronco.

O que muda quando o sono melhora

Quando a apneia é controlada, muitas pessoas percebem redução da sonolência, mais disposição ao acordar e menor necessidade de cochilos durante o dia. A melhora pode ser gradual, especialmente quando existe privação de sono acumulada ou outras condições associadas.

A qualidade de vida também pode mudar no convívio. Reduzir o ronco e os despertares melhora o descanso de quem dorme ao lado e pode diminuir tensão no casal ou na família. Ainda assim, o foco do tratamento não deve ser somente silenciar o ronco: o objetivo é manter uma respiração estável e um sono restaurador.

Em pessoas com hipertensão, diabetes ou doença cardiovascular, o controle da apneia pode contribuir para um manejo mais amplo dessas condições. Isso não significa abandonar medicamentos ou acompanhamento com outros especialistas. A apneia faz parte de um cenário de saúde que deve ser acompanhado de modo integrado.

Também vale observar hábitos que sustentam o resultado: tempo suficiente de sono, rotina regular, atividade física compatível com a condição clínica, controle de rinite e retorno para ajustes quando necessário. O tratamento com CPAP ou aparelho intraoral precisa de acompanhamento, porque peso, sintomas, condições nasais e adaptações podem mudar ao longo do tempo.

Por fim, roncar não é motivo de vergonha, mas também não precisa ser tratado como algo inevitável. Identificar se há apenas ronco simples ou apneia permite escolher uma conduta proporcional ao problema, sem indicar cirurgia quando ela não é necessária e sem deixar de tratar uma condição que pode afetar a saúde.

Quando procurar um otorrino

  • Pausas respiratórias, engasgos ou despertares com sensação de sufocamento durante a noite.
  • Sonolência excessiva durante o dia, especialmente ao dirigir, trabalhar ou assistir televisão.
  • Ronco habitual associado a hipertensão arterial, arritmia, diabetes ou ganho de peso importante.
  • Cefaleia matinal frequente, boca seca ao acordar ou sono persistentemente não reparador.
  • Ronco em quase todas as noites com piora progressiva ou impacto importante na rotina familiar.

Em resumo

  • Ronco adulto é comum, mas pausas respiratórias e sonolência diurna sugerem investigação para apneia.
  • A polissonografia ou o teste domiciliar, quando indicado, ajudam a confirmar o diagnóstico.
  • CPAP, aparelho intraoral, terapia posicional, controle de peso e tratamento nasal são opções possíveis.
  • Cirurgia não é necessária para todo paciente que ronca ou tem apneia.
  • Tratar a apneia pode melhorar disposição, segurança no dia a dia e controle de riscos cardiovasculares.

Perguntas frequentes

Ronco alto sempre é apneia?+

Não. O volume do ronco não é suficiente para diagnosticar apneia. Algumas pessoas roncam alto por vibração intensa do palato e da garganta, mas mantêm a respiração contínua. Por outro lado, há pessoas com apneia que não têm um ronco tão chamativo. O que aumenta a suspeita são pausas respiratórias, engasgos, despertares frequentes, sonolência diurna e queda da oxigenação no exame do sono.

Emagrecer resolve?+

A redução de peso pode diminuir o ronco e reduzir a gravidade da apneia em muitas pessoas, porque diminui parte do estreitamento das vias respiratórias. Porém, ela não resolve todos os casos. Anatomia nasal, mandíbula, amígdalas, palato e posição ao dormir também interferem. Mesmo após emagrecer, pode ser necessário repetir a avaliação do sono para verificar se a apneia persiste e se algum tratamento continua indicado.

O que é polissonografia?+

A polissonografia é um exame que avalia o sono e a respiração durante a noite. Dependendo do tipo de estudo, ela registra fluxo de ar, esforço respiratório, oxigenação, frequência cardíaca, movimentos, posição corporal e estágios do sono. Esses dados permitem identificar apneias, hipopneias, ronco e outras alterações que fragmentam o descanso. Pode ser realizada em laboratório do sono ou, em casos selecionados, por meio de teste domiciliar respiratório.

CPAP é a única opção?+

Não. O CPAP é uma opção muito eficaz, especialmente para apneia moderada a grave, mas não é a única. Conforme o caso, podem ser indicados perda de peso, terapia posicional, aparelho intraoral de avanço mandibular, controle de rinite e obstrução nasal ou cirurgia para alterações anatômicas específicas. A escolha depende do exame do sono, dos sintomas, da anatomia e das condições clínicas. Não é adequado interromper ou trocar um tratamento sem reavaliação.

Dormir de lado ajuda?+

Pode ajudar, principalmente quando a apneia ou o ronco pioram na posição de barriga para cima. Ao dormir de lado, há menor tendência de a língua e os tecidos da garganta se deslocarem para trás. Mas essa estratégia não funciona da mesma forma para todos e pode ser insuficiente em apneia moderada ou grave. O ideal é verificar no estudo do sono se os eventos são predominantemente posicionais antes de considerá-la como tratamento principal.

Dra. Aléxia Garcia

Dra. Aléxia Rezende Garcia

Otorrinolaringologista · Plástica Facial · CRM-MG 101.318 · RQE 68106

Atendo em Uberlândia — MG, com foco em respiração, sono e cirurgia nasal funcional e estética. Explico cada indicação antes de propor qualquer cirurgia.

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Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a consulta médica. Diagnóstico e tratamento dependem de avaliação individual.

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