Ouvido e audição

Cera no ouvido: o que fazer, o que nunca fazer e quando remover

Dra. Aléxia Rezende GarciaCRM-MG 101.318RQE 6810603 de junho de 20265 min de leitura
Cera no ouvido: o que fazer, o que nunca fazer e quando remover

Na maioria das vezes, não é preciso fazer nada: o ouvido elimina a cera naturalmente. Evite cotonetes, velas auriculares e objetos no canal. A remoção é indicada quando há acúmulo com sintomas, dificuldade para examinar o tímpano ou necessidade de aparelho auditivo, sempre com técnica adequada.

Para que serve a cera

A cera no ouvido, chamada tecnicamente de cerúmen, é uma substância produzida naturalmente na parte mais externa do canal auditivo. Ela é formada por secreções de glândulas da pele, células descamadas e pequenas partículas que ficam retidas nessa região.

Apesar da aparência e da consistência variarem bastante entre as pessoas, o cerúmen tem funções importantes. Ele ajuda a manter a pele do canal auditivo hidratada, reduz a entrada de poeira e insetos e dificulta a proliferação de alguns microrganismos. Seu pH mais ácido também contribui para a proteção local.

O ouvido costuma fazer sua própria limpeza. Com os movimentos da mandíbula ao falar e mastigar, a cera migra lentamente do interior para a entrada do canal, onde seca e sai espontaneamente. Por isso, ver um pouco de cerúmen na entrada do ouvido não significa falta de higiene.

A cor pode variar do amarelo-claro ao marrom-escuro. Cerúmen mais escuro, isoladamente, não é sinal de infecção. O aspecto deve ser interpretado junto com sintomas como dor, secreção, coceira importante ou perda auditiva.

Por que algumas pessoas produzem mais

A quantidade de cera no ouvido não depende apenas de limpeza. Existe uma tendência individual e familiar à produção de mais cerúmen ou à formação de cera mais seca e compacta. Pessoas idosas, por exemplo, podem ter cerúmen mais ressecado e dificuldade maior para eliminá-lo naturalmente.

Algumas situações também favorecem o acúmulo:

  • uso frequente de aparelhos auditivos, protetores auriculares ou fones intra-auriculares;
  • canal auditivo mais estreito, curvo ou com alterações anatômicas;
  • presença de muitos pelos na entrada do ouvido;
  • doenças de pele, como dermatite e psoríase;
  • tentativa recorrente de limpar o canal com cotonete ou outros objetos.

Nadar ou tomar banho não causa produção excessiva de cerúmen. Porém, a água pode penetrar em uma cera já acumulada, fazê-la inchar e desencadear sensação de ouvido tampado. Isso pode acontecer de forma súbita após piscina, mar ou banho.

Também é comum que um ouvido acumule mais cera do que o outro. Essa diferença, por si só, não costuma representar doença. O ponto principal é avaliar se há sintomas ou se o cerúmen impede a visualização do tímpano durante uma consulta.

Por que o cotonete piora tudo

O cotonete deve ser usado, quando necessário, somente na parte externa da orelha. Ao introduzi-lo no canal auditivo, ele geralmente não remove a cera: empurra o material para regiões mais profundas, onde pode se compactar e formar um tampão de cerúmen.

Esse hábito também pode irritar ou machucar a pele fina do canal. Pequenas lesões favorecem dor, coceira e otite externa, que é a inflamação ou infecção da pele do canal auditivo. Em situações mais graves, o objeto pode perfurar o tímpano, uma membrana delicada que separa o ouvido externo do ouvido médio.

Não recomendo usar grampos, pinças, chaves, tampas de caneta, palitos ou qualquer outro objeto. Além de empurrar a cera, esses métodos aumentam o risco de ferimento e de deixar fragmentos no ouvido.

A sensação de alívio após passar o cotonete pode dar a impressão de limpeza, mas ela não significa que o canal esteja livre. Muitas vezes, o tampão se forma gradualmente após semanas ou meses de manipulação repetida.

Quando a remoção é necessária

Nem toda cera no ouvido precisa ser removida. Se não há sintomas e o canal permite uma avaliação adequada quando necessária, o cerúmen pode ser deixado em paz. Isso é especialmente importante para quem tem o hábito de “limpar” os ouvidos por rotina: a intervenção desnecessária pode causar mais problemas do que benefícios.

A remoção costuma ser indicada quando há tampão de cerúmen associado a ouvido tampado, redução da audição, zumbido, desconforto ou sensação de pressão. Em alguns casos, a pessoa percebe a própria voz mais forte, fenômeno chamado autofonia.

Também pode ser necessária para que eu consiga examinar o tímpano em quadros de dor de ouvido, suspeita de infecção, trauma ou alteração auditiva. Para quem usa aparelho auditivo, o acúmulo pode provocar apitos no dispositivo, piorar sua adaptação ou reduzir o benefício da amplificação.

Uma perda auditiva súbita, principalmente em apenas um ouvido, não deve ser atribuída automaticamente à cera. Embora um tampão possa reduzir a audição de maneira condutiva, isto é, por bloquear a passagem do som pelo canal, alterações súbitas precisam de avaliação médica rápida.

Como o otorrino remove com segurança

Antes de retirar a cera, examino o ouvido com otoscópio ou microscópio para confirmar se há acúmulo, observar a pele do canal e avaliar o tímpano. Essa etapa é essencial, pois dor, sensação de tampamento e perda auditiva podem ter outras causas.

A técnica depende do tipo de cerúmen, da anatomia do canal e do histórico de cada pessoa. Posso utilizar curetas próprias, que são instrumentos delicados para retirada sob visualização; aspiração com equipamento adequado; ou lavagem auricular, quando ela é segura e indicada.

A lavagem não é apropriada para todos. Deve ser evitada ou cuidadosamente avaliada em pessoas com perfuração no tímpano, tubos de ventilação, cirurgia prévia no ouvido, infecção ativa, dor intensa ou determinadas doenças do ouvido médio. Nesses casos, outras técnicas podem ser mais adequadas.

Em algumas situações, indico gotas ceruminolíticas, isto é, soluções que ajudam a amolecer o cerúmen antes da remoção. Elas não devem ser usadas sem orientação se houver dor, secreção, suspeita de perfuração timpânica ou cirurgia otológica prévia. O produto correto e o tempo de uso variam conforme o caso.

Cuidados no dia a dia

Para a maioria das pessoas, o melhor cuidado é lavar apenas a parte externa da orelha durante o banho e secá-la suavemente com toalha. Não há necessidade de introduzir nada no canal auditivo.

Quem tende a formar tampões repetidos pode precisar de acompanhamento periódico, mas não existe uma frequência universal de limpeza. Ela deve ser definida conforme sintomas, achados no exame e fatores como uso de aparelho auditivo ou alterações anatômicas.

Após banho, piscina ou mar, incline a cabeça para cada lado para facilitar a saída da água. Evite pingar álcool, água oxigenada ou soluções caseiras sem recomendação, especialmente se já houve perfuração, cirurgia no ouvido, dor ou secreção.

Se houver coceira frequente, descamação ou uso contínuo de fones e aparelhos auditivos, vale investigar irritação da pele, dermatite ou infecção em vez de aumentar a limpeza. Cuidar do ouvido, na maioria das vezes, significa respeitar seu mecanismo natural de proteção.

Quando procurar um otorrino

  • Perda auditiva súbita ou piora rápida da audição, especialmente em um único ouvido.
  • Dor forte, secreção, sangramento ou mau cheiro saindo do ouvido.
  • Febre associada a dor de ouvido ou sensibilidade importante ao tocar a orelha.
  • Tontura intensa, desequilíbrio ou zumbido novo acompanhado de redução auditiva.
  • Sensação persistente de ouvido tampado que não melhora ou retorna com frequência.

Em resumo

  • Em resumo: a cera no ouvido é uma proteção natural e, na maioria das vezes, não precisa ser removida.
  • Em resumo: cotonetes e outros objetos podem empurrar a cera para dentro e causar lesões.
  • Em resumo: tampão de cerúmen pode causar ouvido tampado e redução auditiva temporária.
  • Em resumo: a técnica de remoção deve ser escolhida após examinar o canal e o tímpano.
  • Em resumo: dor, secreção ou perda auditiva súbita exigem avaliação médica.

Perguntas frequentes

Posso usar vela auricular?+

Não. A vela auricular não remove a cera de forma comprovada e pode causar queimaduras na orelha, no rosto e no canal auditivo. Também há risco de a própria cera derretida da vela cair dentro do ouvido, piorando a obstrução. Além disso, o calor pode lesar o tímpano. A sensação de material retirado após o uso costuma corresponder a resíduos da própria vela, e não ao cerúmen. Para acúmulo de cera no ouvido, a conduta segura é avaliação otorrinolaringológica.

Água oxigenada resolve?+

A água oxigenada pode ajudar a amolecer alguns tipos de cerúmen, mas não é uma solução adequada para todos os casos e não deve ser usada como rotina. Ela pode irritar a pele do canal e causar ardor. Deve ser evitada se houver dor, secreção, perfuração do tímpano, tubo de ventilação, cirurgia prévia no ouvido ou suspeita de infecção. Mesmo quando uma solução amolecedora é indicada, é importante confirmar que o sintoma decorre realmente de cera acumulada.

De quanto em quanto tempo limpar o ouvido?+

Não existe intervalo fixo para limpar o ouvido por dentro, porque essa limpeza normalmente não é necessária. O canal auditivo elimina o cerúmen de forma natural. No dia a dia, basta higienizar a parte externa da orelha com água e toalha, sem introduzir cotonete. Pessoas que acumulam tampões repetidamente, usam aparelho auditivo ou têm canal estreito podem precisar de avaliação periódica. A frequência, porém, deve ser individualizada após exame, e não determinada por uma regra mensal ou semanal.

Cera pode causar tontura?+

Um tampão de cerúmen pode causar sensação de ouvido cheio, desconforto e, ocasionalmente, uma sensação leve de instabilidade. No entanto, vertigem verdadeira — impressão de que tudo está girando — não deve ser atribuída automaticamente à cera no ouvido. Tontura pode ter causas no ouvido interno, neurológicas, cardiovasculares ou metabólicas. Se a tontura for intensa, recorrente, vier acompanhada de perda auditiva súbita, fraqueza, fala alterada, dor de cabeça forte ou dificuldade para andar, é necessária avaliação médica rápida.

Cera pode causar perda de audição?+

Sim. Quando a cera se compacta e obstrui o canal auditivo, ela pode reduzir a passagem do som e causar perda auditiva temporária, geralmente acompanhada de sensação de ouvido tampado. Essa é uma perda condutiva, ou seja, ocorre por bloqueio no caminho do som, e tende a melhorar após a retirada adequada do tampão. Ainda assim, não é seguro presumir que toda redução auditiva seja cera. Perda súbita, unilateral ou associada a zumbido e tontura precisa de avaliação otorrinolaringológica sem demora.

Dra. Aléxia Garcia

Dra. Aléxia Rezende Garcia

Otorrinolaringologista · Plástica Facial · CRM-MG 101.318 · RQE 68106

Atendo em Uberlândia — MG, com foco em respiração, sono e cirurgia nasal funcional e estética. Explico cada indicação antes de propor qualquer cirurgia.

Quer avaliar o seu caso com calma?

Agendamento pelo WhatsApp do consultório.

Falar via WhatsApp

Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a consulta médica. Diagnóstico e tratamento dependem de avaliação individual.

Continue lendo