Otorrino infantil e sono da criança

Criança com audição suspeita: sinais por faixa etária e quando testar

Dra. Aléxia Rezende GarciaCRM-MG 101.318RQE 6810601 de julho de 20265 min de leitura
Criança com audição suspeita: sinais por faixa etária e quando testar

A suspeita deve ser investigada quando a criança não reage adequadamente aos sons, apresenta atraso de linguagem, pede repetição com frequência ou tem dificuldades escolares. Os sinais variam conforme a idade, e exames objetivos ou comportamentais ajudam a identificar alterações precocemente, inclusive quando a criança ainda não fala.

Por que a audição precisa ser acompanhada desde o nascimento

A audição participa do desenvolvimento da fala, da linguagem, da aprendizagem e das relações sociais. Por isso, acompanhar a resposta da criança aos sons não é apenas uma questão de ouvir bem: é também observar como ela está se comunicando e aprendendo.

A perda auditiva infantil é a redução parcial ou total da capacidade de ouvir em uma ou ambas as orelhas. Ela pode estar presente desde o nascimento, surgir nos primeiros anos de vida ou aparecer mais tarde, por diferentes motivos.

No Brasil, a triagem auditiva neonatal, conhecida como teste da orelhinha, é recomendada ainda na maternidade. Mesmo quando esse teste apresenta resultado normal, porém, o acompanhamento continua importante. Algumas alterações auditivas podem surgir posteriormente ou não ser detectadas na triagem inicial.

Na prática do consultório, oriento as famílias a valorizarem mudanças no comportamento auditivo e no desenvolvimento da linguagem. Os sinais de perda auditiva infantil podem ser sutis, especialmente quando o comprometimento é leve, ocorre em apenas uma orelha ou varia ao longo do tempo.

Sinais no primeiro ano de vida

Nos primeiros meses, o bebê costuma demonstrar reações aos sons intensos, como sustos, piscadas, interrupção do choro ou movimentos corporais. Aos poucos, ele começa a reconhecer vozes familiares, procurar a origem de alguns sons e brincar com sons da própria voz.

Alguns sinais que merecem avaliação são:

  • não se assustar ou não reagir a sons fortes;
  • não acalmar ou não demonstrar atenção diante da voz dos responsáveis;
  • não procurar a fonte de sons por volta dos 6 meses;
  • não balbuciar, emitir poucos sons ou deixar de vocalizar;
  • apresentar infecções de ouvido frequentes associadas a pouca reação sonora.

Uma reação isolada não confirma nem exclui uma alteração. O bebê pode estar cansado, distraído ou em sono profundo. O mais relevante é perceber um padrão persistente de pouca resposta aos sons no dia a dia.

Também observo com atenção situações de maior risco, como permanência em unidade neonatal, histórico familiar de perda auditiva na infância, algumas infecções durante a gestação, malformações de cabeça e pescoço e uso de medicamentos que podem afetar a audição. Nesses casos, o seguimento auditivo pode ser indicado mesmo após um teste da orelhinha normal.

Sinais entre 1 e 3 anos

Entre 1 e 3 anos, a criança amplia o vocabulário e passa a compreender orientações simples. Nem todas desenvolvem a fala no mesmo ritmo, mas é esperado que haja evolução progressiva na comunicação.

Nessa faixa etária, vale investigar quando a criança:

  • não responde ao próprio nome de forma consistente;
  • parece ouvir apenas quando chamada mais alto ou de perto;
  • aumenta muito o volume da televisão, do celular ou de brinquedos sonoros;
  • não compreende comandos adequados para a idade;
  • fala poucas palavras ou apresenta dificuldade importante para evoluir na linguagem;
  • olha fixamente para o rosto do adulto para entender o que foi dito;
  • teve várias otites ou fica frequentemente com sensação de ouvido tampado.

É comum que crianças pequenas alternem momentos de atenção e distração. Ainda assim, se os responsáveis sentem que precisam repetir muitas vezes ou percebem respostas inconsistentes, a avaliação é indicada.

Atraso de fala não significa automaticamente perda auditiva. Há outras possibilidades, incluindo diferenças no desenvolvimento da linguagem, alterações orais, condições neurológicas e fatores ambientais. Mas ouvir adequadamente é um requisito importante para aprender a linguagem falada, por isso a audição deve fazer parte da investigação.

Sinais na idade escolar

Na idade escolar, algumas crianças com alteração auditiva leve passam despercebidas por bastante tempo. Elas podem ouvir em ambientes silenciosos, mas ter dificuldade para entender a fala quando há ruído, várias pessoas conversando ou maior distância da professora.

Os sinais podem incluir queda no rendimento escolar, dificuldade para seguir instruções coletivas, desatenção aparente, cansaço ao fim das aulas e necessidade de sentar perto da professora. Também é possível haver trocas na fala, pedidos frequentes de repetição e queixa de que as pessoas “falam baixo” ou “embolado”.

Uma perda auditiva em apenas uma orelha também merece atenção. Embora a criança escute pelo outro lado, pode ter dificuldade para localizar a origem do som e compreender conversas em locais barulhentos.

Em crianças com queixas escolares, não é adequado concluir que se trata apenas de desatenção ou dificuldade de aprendizagem sem avaliar outros fatores. A investigação pode envolver pediatra, otorrinolaringologista, fonoaudiólogo e, quando necessário, profissionais da área do desenvolvimento infantil.

Quais exames avaliam a audição

A escolha do exame depende da idade, do comportamento da criança e da hipótese clínica. Nem todos exigem que ela responda verbalmente ou aperte botões.

A avaliação começa com história clínica, observação do desenvolvimento e exame das orelhas. A otoscopia é o exame visual do canal auditivo e do tímpano, útil para identificar cera, inflamação, perfuração ou sinais de líquido atrás do tímpano.

Entre os testes mais utilizados estão:

  • Emissões otoacústicas: registram uma resposta produzida pela cóclea, estrutura do ouvido interno responsável por transformar som em sinal nervoso. São usadas no teste da orelhinha e em avaliações posteriores.
  • BERA ou PEATE: o potencial evocado auditivo de tronco encefálico avalia a resposta das vias auditivas ao som por meio de eletrodos colocados na pele. É especialmente útil em bebês e crianças que ainda não conseguem colaborar com testes comportamentais.
  • Imitanciometria: avalia a mobilidade do tímpano e a pressão no ouvido médio. Pode sugerir presença de líquido, algo frequente após otites ou em quadros de disfunção da tuba auditiva.
  • Audiometria comportamental: verifica as respostas da criança aos sons de forma lúdica ou por condicionamento, conforme a idade. Crianças pequenas podem participar com técnicas adaptadas.
  • Audiometria tonal e vocal: geralmente aplicada em crianças maiores, identifica os sons mais fracos que conseguem ouvir e avalia a compreensão da fala.

Os resultados devem ser interpretados em conjunto. Um único teste alterado nem sempre define o diagnóstico, e o acompanhamento pode exigir repetição de exames em momentos diferentes.

O que fazer quando a suspeita se confirma

Quando identificamos uma alteração auditiva, o primeiro passo é entender sua causa, o tipo e o grau. A perda pode ser condutiva, quando o som encontra dificuldade para passar pelo ouvido externo ou médio; neurossensorial, quando envolve cóclea ou nervo auditivo; ou mista, quando há mais de um mecanismo.

Em alguns casos, como acúmulo de cera ou líquido temporário no ouvido médio, a alteração pode ser reversível com tratamento clínico e acompanhamento. Nem toda criança com alteração de audição precisa de cirurgia. A indicação cirúrgica depende da causa, da persistência do problema e do impacto funcional.

Quando há perda auditiva permanente, o cuidado pode incluir adaptação de aparelhos auditivos, implante coclear em situações selecionadas, acompanhamento fonoaudiológico e orientações à família e à escola. O implante coclear é um dispositivo eletrônico que estimula diretamente o nervo auditivo e não é indicado para todos os tipos de perda.

O objetivo é oferecer acesso adequado aos sons e favorecer o desenvolvimento comunicativo da criança. Quanto mais cedo a alteração é reconhecida e acompanhada, maiores são as possibilidades de planejamento individualizado para cada fase do desenvolvimento.

Quando procurar um otorrino

  • O bebê não reage de forma consistente a sons fortes ou à voz dos responsáveis.
  • A criança não responde ao nome, pede repetição com frequência ou aumenta muito o volume de telas.
  • Há atraso ou interrupção na evolução da fala e da linguagem.
  • Ocorreram otites repetidas, sensação de ouvido tampado ou secreção persistente.
  • A criança apresenta dificuldade escolar, especialmente para entender a fala em locais barulhentos.

Em resumo

  • O teste da orelhinha é fundamental, mas não substitui a observação da audição ao longo da infância.
  • Os sinais de perda auditiva infantil mudam conforme a idade e podem ser discretos.
  • Atraso de fala e dificuldade escolar justificam incluir a audição na investigação.
  • Há exames adequados para bebês, crianças pequenas e escolares.
  • Nem toda alteração auditiva exige cirurgia; o tratamento depende da causa.

Perguntas frequentes

O teste da orelhinha é suficiente?+

O teste da orelhinha é uma triagem muito importante, realizada preferencialmente ainda na maternidade. Ele identifica bebês que precisam de investigação complementar, mas não avalia todas as situações possíveis nem substitui o acompanhamento do desenvolvimento auditivo. Algumas perdas auditivas surgem depois do nascimento, podem ser progressivas ou ocorrer após infecções, uso de certos medicamentos e outras condições. Se houver sinais de dificuldade para ouvir, atraso de linguagem ou fatores de risco, a criança deve ser reavaliada mesmo que tenha passado no teste.

Atraso de fala é sempre audição?+

Não. Atraso de fala pode ocorrer por diversos motivos, como variações do desenvolvimento da linguagem, dificuldades na articulação dos sons, alterações neurológicas, condições do desenvolvimento, pouco estímulo linguístico ou questões emocionais. Ainda assim, a audição deve ser investigada, porque uma criança que não escuta bem pode ter dificuldade para perceber e reproduzir os sons da fala. A avaliação auditiva ajuda a excluir ou identificar esse fator e permite organizar o acompanhamento mais adequado com pediatra, otorrinolaringologista e fonoaudiólogo.

Criança pode fazer audiometria?+

Sim. Existem formas de audiometria adaptadas a diferentes idades. Em crianças pequenas, utilizamos métodos lúdicos e de condicionamento, nos quais ela aprende a realizar uma ação ao ouvir um som, como encaixar uma peça ou olhar para um brinquedo. Crianças maiores geralmente conseguem responder de maneira semelhante aos adultos. Quando a colaboração ainda não é possível, outros exames objetivos, como emissões otoacústicas e potencial evocado auditivo, fornecem informações importantes sobre a audição e as vias auditivas.

Otite de repetição causa perda auditiva?+

Otites, especialmente quando há líquido persistente atrás do tímpano, podem causar perda auditiva condutiva temporária. Isso acontece porque o som passa com mais dificuldade pelo ouvido médio. Em muitos casos, a audição melhora quando a inflamação e o líquido se resolvem. Porém, episódios frequentes ou líquido mantido por longo período merecem acompanhamento, pois podem interferir na percepção da fala e na aprendizagem. A necessidade de tratamento clínico, observação ou cirurgia depende da duração, dos sintomas, do exame da orelha e da avaliação auditiva.

A perda auditiva pode aparecer depois?+

Sim. Nem toda perda auditiva está presente ao nascimento. Algumas podem aparecer na infância após meningite, traumatismos, exposição a ruídos intensos, uso de medicamentos específicos, infecções, doenças genéticas de manifestação tardia ou problemas persistentes no ouvido médio. Há também perdas progressivas, que se tornam mais evidentes com o passar do tempo. Por esse motivo, um resultado normal no teste da orelhinha não elimina a necessidade de atenção aos marcos de linguagem, ao comportamento auditivo e às queixas da criança ou da escola.

Dra. Aléxia Garcia

Dra. Aléxia Rezende Garcia

Otorrinolaringologista · Plástica Facial · CRM-MG 101.318 · RQE 68106

Atendo em Uberlândia — MG, com foco em respiração, sono e cirurgia nasal funcional e estética. Explico cada indicação antes de propor qualquer cirurgia.

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Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a consulta médica. Diagnóstico e tratamento dependem de avaliação individual.

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