O tubinho de ventilação ajuda a arejar o ouvido médio e a drenar líquido persistente atrás do tímpano. Ele pode melhorar a audição enquanto permanece no local e reduzir alguns episódios de infecção em casos selecionados. Nem toda criança com otite ou líquido no ouvido precisa de cirurgia.
O que é o tubo de ventilação
O tubinho de ventilação ouvido, também chamado de tubo de timpanostomia, é uma pequena peça colocada no tímpano. Sua função é criar uma passagem temporária entre o ouvido médio e o canal auditivo, permitindo a entrada de ar e a saída de secreções.
O ouvido médio é a região atrás do tímpano onde ficam os pequenos ossos responsáveis por transmitir o som. Para funcionar bem, esse espaço precisa estar ventilado. Essa ventilação costuma ocorrer pela tuba auditiva, canal que liga o ouvido à região posterior do nariz.
Em crianças, a tuba auditiva ainda está em desenvolvimento. Por isso, pode não abrir de forma eficiente durante gripes, alergias nasais, aumento de adenoide ou infecções respiratórias. Como consequência, pode surgir líquido atrás do tímpano, situação conhecida como otite média com efusão.
O tubo não substitui a função natural da tuba auditiva para sempre. Ele atua por um período limitado, enquanto a criança cresce e as condições que favorecem o acúmulo de líquido podem melhorar.
Por que o líquido no ouvido atrapalha a audição
Quando há líquido no ouvido médio, o tímpano e os ossículos não vibram livremente. Isso causa uma perda auditiva condutiva, isto é, uma dificuldade para o som chegar adequadamente ao ouvido interno.
Muitas crianças não conseguem explicar que estão ouvindo menos. Os sinais podem ser discretos, como:
- pedir repetição com frequência;
- aumentar muito o volume da televisão;
- parecer desatenta em ambientes barulhentos;
- ter dificuldade para entender a fala na escola;
- apresentar atraso ou mudanças na evolução da linguagem.
O líquido nem sempre provoca dor ou febre. Por esse motivo, uma criança pode aparentar estar bem e, ainda assim, ter alteração auditiva temporária.
A persistência desse quadro merece avaliação, principalmente nos primeiros anos de vida, fase importante para o desenvolvimento da fala e da linguagem. A investigação pode incluir otoscopia, timpanometria — exame que avalia a mobilidade do tímpano — e audiometria ou testes auditivos adequados à idade.
É importante lembrar que líquido no ouvido não significa, obrigatoriamente, infecção ativa. Em muitos casos, ele desaparece espontaneamente com o tempo. Portanto, nem todo derrame no ouvido precisa de antibiótico ou de cirurgia.
Quando o tubo é indicado
A indicação é individualizada. Eu considero os sintomas, o tempo de permanência do líquido, os exames auditivos, a frequência das infecções e os impactos na comunicação e na rotina da criança.
O procedimento costuma ser considerado quando há otite média com efusão persistente, em geral por três meses ou mais, associada a perda auditiva documentada, dificuldade importante de comunicação ou repercussões no desenvolvimento.
Também pode ser indicado para crianças com otites médias agudas recorrentes, especialmente quando existem episódios repetidos e há líquido no ouvido no momento da avaliação. Otite média aguda é a infecção do ouvido médio que geralmente causa dor, febre e irritabilidade.
Crianças com maior risco para dificuldades de linguagem e aprendizagem podem precisar de atenção mais precoce. Entre elas estão aquelas com atraso de fala, alterações neurológicas, fissura labiopalatina, síndrome de Down, deficiência visual ou auditiva prévia.
Antes de indicar o tubo, avalio fatores associados. A adenoide, tecido localizado atrás do nariz, pode contribuir para obstrução nasal e mau funcionamento da tuba auditiva. Dependendo da idade e dos sintomas, seu tratamento pode ser discutido junto ao procedimento.
Quando o líquido é recente, a audição está preservada e a criança não apresenta prejuízos relevantes, a observação com reavaliações programadas costuma ser uma conduta segura. Não é necessário operar apenas porque foi encontrado líquido em uma consulta isolada.
Como é o procedimento
A colocação do tubo é realizada por meio de uma pequena abertura no tímpano, chamada miringotomia. Por essa abertura, retiro o líquido presente no ouvido médio, quando houver, e posiciono o tubo.
Em crianças pequenas, o procedimento normalmente é feito em centro cirúrgico, sob anestesia geral. A anestesia permite que a criança fique imóvel e confortável durante uma cirurgia curta. Em adultos selecionados e crianças maiores colaborativas, pode haver outras possibilidades anestésicas, definidas caso a caso.
A intervenção em si costuma durar poucos minutos. Na maioria das situações, a alta ocorre no mesmo dia, após o período de recuperação anestésica.
Logo após a colocação, algumas crianças percebem os sons mais intensos, pois voltam a ouvir sem a barreira do líquido. Isso pode causar estranhamento temporário, mas tende a melhorar à medida que elas se adaptam.
Como todo procedimento, há riscos, embora complicações importantes sejam incomuns. Pode ocorrer saída de secreção pelo ouvido, obstrução do tubo, eliminação precoce, persistência de pequena perfuração após sua saída ou necessidade de novo tubo em algumas crianças. Esses pontos devem ser conversados antes da cirurgia.
Cuidados no dia a dia
Depois do procedimento, pode haver pequeno desconforto e uma quantidade discreta de secreção, às vezes com traços de sangue, nos primeiros dias. Quando indicado, prescrevo gotas otológicas específicas. Não se deve usar gotas caseiras, álcool, água oxigenada ou medicamentos sem orientação.
A presença de secreção amarelada, esverdeada ou com mau cheiro pode indicar otorreia, que é a saída de secreção pelo ouvido. Com o tubo, uma infecção do ouvido médio pode drenar para fora, em vez de ficar retida atrás do tímpano. Nesses casos, é importante avisar o otorrino para definir a necessidade de tratamento.
No cotidiano, a criança pode frequentar escola, brincar e realizar suas atividades habituais após a recuperação orientada pela equipe. Não é necessário restringir a alimentação.
Sobre água, a orientação não é igual para todos. Para banhos de chuveiro e piscina tratada, em geral não é preciso usar tampões de rotina. No entanto, eu posso recomendar proteção em situações específicas, como mergulhos profundos, natação frequente, água de lago, rio ou mar, histórico de secreção recorrente ou desconforto quando entra água no ouvido.
Evite introduzir cotonetes, dedos ou outros objetos no canal auditivo. Eles podem machucar a pele, empurrar cera e não evitam infecções.
As consultas de acompanhamento são importantes para verificar se o tubo está aberto, se o tímpano está saudável e como está a audição. Mesmo quando a criança parece melhor, o seguimento não deve ser interrompido.
Quando o tubo sai
A maioria dos tubos é temporária e sai espontaneamente. À medida que o tímpano se renova, ele empurra o tubo gradualmente para o canal auditivo, de onde pode cair sem que a família perceba.
Em geral, os modelos mais usados permanecem entre seis e 18 meses, mas esse período varia conforme o tipo de tubo e as características de cada ouvido. Após a saída, a pequena abertura no tímpano costuma cicatrizar sozinha.
Alguns tubos permanecem por mais tempo do que o esperado. Nessa situação, acompanho de perto e posso indicar a retirada se houver risco de perfuração persistente, infecções repetidas ou outras alterações. A retirada pode ser simples em determinados casos, mas algumas crianças necessitam de procedimento em ambiente cirúrgico.
Também é possível que o líquido ou as otites retornem após a extrusão do tubo. Isso não significa que a cirurgia tenha falhado: a necessidade de novo tratamento depende da evolução da tuba auditiva, das infecções respiratórias, da adenoide e da audição naquele momento.
O ponto central é acompanhar a criança com exame do ouvido e avaliação auditiva quando necessária. O objetivo não é manter um tubo por tempo indeterminado, mas preservar a audição e reduzir impactos no desenvolvimento durante uma fase vulnerável.
Quando procurar um otorrino
- Saída de secreção amarelada, esverdeada, com mau cheiro ou persistente pelo ouvido.
- Dor de ouvido intensa, febre ou irritabilidade importante após o procedimento.
- Piora da audição, aumento do volume da televisão ou dificuldade para compreender a fala.
- Tontura persistente, desequilíbrio ou vômitos associados a sintomas no ouvido.
- Histórico de otites repetidas ou líquido no ouvido por mais de três meses.
Em resumo
- O tubo ventila o ouvido médio e permite a drenagem de líquido acumulado atrás do tímpano.
- Líquido persistente pode causar redução temporária da audição e afetar comunicação e aprendizagem.
- Nem toda criança com otite ou líquido no ouvido precisa de cirurgia.
- A maioria dos tubos sai espontaneamente após meses, com cicatrização natural do tímpano.
- Acompanhamento otorrinolaringológico é necessário enquanto o tubo estiver no ouvido.
Perguntas frequentes
A criança pode nadar com o tubo?+
Na maior parte dos casos, a criança pode frequentar piscina tratada sem tampões de rotina, especialmente para brincadeiras e natação na superfície. A recomendação pode mudar se houver mergulhos profundos, contato com água de lago, rio ou mar, secreção recorrente pelo ouvido ou desconforto após entrar na água. Cada caso deve ser orientado pelo otorrino que acompanha a criança. O mais importante é observar se surge secreção ou dor após as atividades aquáticas e comunicar a equipe médica.
O tubo precisa ser retirado?+
Geralmente, não. A maioria dos tubos é expulsa naturalmente pelo próprio tímpano ao longo de meses e pode cair no canal auditivo sem causar sintomas. Em alguns casos, ele permanece mais tempo do que o previsto ou está associado a secreção recorrente, perfuração do tímpano ou outros problemas. Nessas situações, a retirada pode ser indicada. A forma de remover depende da idade da criança, do tipo de tubo e de sua posição no ouvido.
Dói?+
Durante o procedimento, a criança não sente dor porque normalmente está sob anestesia geral. Após a cirurgia, pode haver leve incômodo, irritabilidade ou sensação diferente no ouvido por pouco tempo, mas dor intensa não é esperada. Algumas crianças também estranham ouvir os sons mais altos logo após a drenagem do líquido. Se houver dor forte, febre, tontura ou secreção persistente, é importante procurar avaliação para identificar se há infecção ou outra intercorrência.
A audição melhora na hora?+
Quando a redução auditiva era causada principalmente pelo líquido no ouvido médio, a melhora pode ser percebida logo após o procedimento ou nos primeiros dias. A criança pode passar a responder melhor aos chamados e diminuir o volume da televisão. Ainda assim, nem toda alteração auditiva tem a mesma causa. Por isso, em situações indicadas, realizamos acompanhamento com testes auditivos para confirmar a recuperação e verificar se existe algum outro fator interferindo na audição.
O tubo pode cair sozinho?+
Sim. Isso é o esperado na maioria das vezes. O tímpano se renova continuamente e, aos poucos, desloca o tubo para fora. Ele pode cair no canal auditivo e ser eliminado sem que a família perceba. O tempo de permanência varia, mas muitos tubos saem entre seis e 18 meses. Mesmo após a queda, é recomendável retornar ao otorrino para confirmar se o tímpano cicatrizou adequadamente e se a audição permanece estável.

Dra. Aléxia Rezende Garcia
Otorrinolaringologista · Plástica Facial · CRM-MG 101.318 · RQE 68106
Atendo em Uberlândia — MG, com foco em respiração, sono e cirurgia nasal funcional e estética. Explico cada indicação antes de propor qualquer cirurgia.
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Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a consulta médica. Diagnóstico e tratamento dependem de avaliação individual.




